Conversas de Café: o homem que (quase) não bebe café
Esta é uma série diferente do habitual no Dose Certa. Não começa com uma pergunta técnica. Começa com uma conversa.
Há umas semanas gravei uma chamada com o Miguel Carneiro, fundador da Timeless Relic, para explorar um formato que ainda estou a testar. A ideia era simples: falar de café com alguém que eu conheço bem, com tempo e sem guião rígido. O que saiu daí foi material suficiente para vários artigos. Este é o primeiro.
O Miguel bebe café, três ou quatro vezes por ano. Isso é incomum. A norma é beber todos os dias ou nunca.
Este artigo é maior que os do costume, senta-te com um café, relaxa e lê com calma.
O que é que alguém que quase não bebe café, tem a dizer sobre café?
A primeira pergunta que lhe fiz foi exactamente essa.
A resposta foi direta: ele gosta do sabor. Se for café gelado, bebe. Num dia de pernas no ginásio, se lhe apetecer, bebe. Trata o café da mesma forma que trata o álcool. Consome quando quer, com consciência, e não por hábito.
O que o levou a essa decisão foi um livro. *Why We Sleep, do Matt Walker. A ideia central é que o sono é o fator mais importante para a saúde, física e mental, e que a cafeína interfere com ele de formas que muita gente subestima.
Para o Miguel, a questão é simples: o cérebro é o seu principal activo profissional. Tudo o que ameace esse activo tem de ser gerido com cuidado. A cafeína entrou nessa categoria.
Uma decisão racional, intencional, pragmática e sem drama.
A faculdade e o fusível que rebentou
Mas nem sempre foi assim.
O Miguel, como a maior parte de nós, não bebia café antes da faculdade. Começou por necessidade, com os projectos de fim de semestre, as noites longas, a pressão das entregas. E depois veio a Queima das Fitas…
Estava a trabalhar para a associação de estudantes, de manhã, e a ir às festas à noite. A solução encontrada foi misturar Red Bull com vodka para me manter funcional nos dois turnos. Dias e dias seguidos: cafeína, taurina, álcool… repetir.
O que aconteceu depois é o que ele descreve como um fusível que rebentou. A cafeína começou a fazer o efeito contrário: durante o dia dava-lhe sono, à noite ficava acordado a olhar para o teto ou a programar até de manhã. O padrão clássico de quem abusou durante tempo suficiente para o corpo ficar confuso e perder-se.
Eu tenho a minha própria versão desta história. No ISEP, havia máquinas de vending no departamento de informática (DEI). Eram baratas e o café era terrível. Mas toda a gente bebia daquilo, eu incluído, porque era o que se fazia quando tinhas um projecto para entregar. Um dia, na casa de um amigo (olá Adam), que ficava perto da faculdade e era o ponto de encontro para essas maratonas, bebemos uma caixa inteira de bebidas energéticas. Fora do prazo. Anos fora do prazo, não uns dias. Fiquei acordado cerca de 60h. No final já tinha micro-sonos durante o dia.
Não recomendo.
O abuso de cafeína na faculdade é quase um ritual de passagem. O que distingue as pessoas já quase não é SE passaram por isso, mas SE reconheceram o momento de parar.
Meia-vida
Durante a conversa, uma das partes mais científicas que tocamos foi sobre a meia-vida da cafeína.
O número que o Matt Walker cita é doze horas. Significa que se beberes um café ao meio-dia, à meia-noite ainda tens metade da cafeína em circulação. É uma das razões pelas quais tantas pessoas dormem mal sem conseguir identificar porquê.
O Miguel é suficientemente sensível para sentir o efeito apenas com um café de manhã. Diz que vai para a cama e nota palpitações. Para ele, mesmo dentro da meia-vida de doze horas, ainda há cafeína suficiente para interferir.
A sensibilidade varia muito de pessoa para pessoa. Mas há uma pergunta interessante que ele faz, a quem diz que a cafeína não o afecta:
Quando foi a última vez que passaste uma semana sem cafeína, e prestaste atenção ao que aconteceu? Mesmo 24 horas podem não chegar para notar a diferença.
A maioria nunca tentou. Outros tentaram mas não estavam a observar. É difícil avaliar o impacto de alguma coisa que nunca retiraste o suficiente para sentir a diferença.
E a cafeína está em mais sítios do que as pessoas pensam, e em maior quantidade também. Chá preto, chá verde, Coca-Cola, chocolate, algumas sobremesas. O Miguel partilhou uma distinção simples que usa: se for chá, tem cafeína. Se for infusão de ervas, normalmente não tem. É uma simplificação, mas é útil e a maior parte das pessoas não sabe.
O café como ritual
Aqui é onde a minha perspectiva entra mais claramente.
Eu bebo dois expressos duplos por dia. Um antes de começar a trabalhar, outro a meio do dia. São os únicos. Porquê? Porque descobri que é o suficiente, e que se beber mais, começo a sentir o que o Miguel descreveu.
O que me interessa não é só a cafeína. É o ritual. A pausa deliberada, o processo de preparar o café em casa, o momento antes de ligar o computador ou no intervalo do trabalho. É uma coisa que acalma, paradoxalmente, mesmo sendo um estimulante.
Isso tornou-se especialmente claro quando saí de um emprego em que o stress estava descontrolado. Nessa altura bebia mais café do que devia. Um escalava a necessidade do outro. O stress aumentava a percepção de necessidade de mais cafeína, e a cafeína aumentava o estado de alerta e a ansiedade. Se tivesse reconhecido isso mais cedo, podia ter ajustado antes.
O café pode ser uma ferramenta para acalmar ou um amplificador de stress, dependendo do contexto em que o usas. Intencionalidade é tudo.
Conclusão
No final, ficou combinado que quando eu for ao Porto, vamos juntos a um café de especialidade.
Há algo de especial aqui. Um homem que bebe café três vezes por ano vai provar café bom. Não por obrigação, não por hábito, mas porque quer. Porque lhe apetece. Porque escolhe.
É exactamente essa a relação com o café que faz sentido ter.
Podes gostar de café sem que seja uma obsessão. Se já bebes, vale a pena pensar se estás a fazê-lo porque gostas, porque precisas, ou porque toda a gente à tua volta o faz. E se for porque gostas, talvez valha a pena fazê-lo melhor.
O Miguel vai beber um café muito bom. Vai gostar. E depois vai esperar outros três meses.
Porque assim escolheu. Porque lhe apetece. E porque quer partilhar isso com alguém para quem o café tem peso.
PS: *Uma nota sobre o Why We Sleep
Vale a pena referir isto: O livro do Matt Walker tem sido criticado por alguns cientistas do sono por conter imprecisões factuais e alguns exageros nos dados sobre privação de sono.
O próprio Walker inclui um aviso no início: se já tens problemas de insónia, aborda o livro com cuidado. A componente psicológica do sono é real, e ler um livro que dramatiza os efeitos da privação pode aumentar a ansiedade em quem já tem dificuldade em dormir, tornando o problema pior.
Dito isto, a mensagem central mantém-se válida. O sono é um pilar fundamental de saúde e é subvalorizado. Os erros factuais não invalidam isso. Mas é um livro que beneficia de ser lido com um grão de sal, como todos os livros de divulgação científica populares.





